Falar de violência doméstica contra a mulher é, sem dúvidas, algo muito delicado; normalmente quem sofreu, não gosta de se lembrar de e evita o assunto por diversas razões extremamente compreensíveis. Quem presencia ou acompanha alguém que sofre devido a esse tipo de agressão, talvez não aparente para todos – mas, certamente, também evita recordar e ainda lida com o tema de forma igualmente dolorosa,  pois são feridas abertas e cicatrizes psicológicas que moram eternamente nas vitimas diretas e indiretas.

Na minha pré-adolescência, uma pessoa muito próxima de mim foi vitima de violência doméstica, isso transformou a minha experiência de vida em diversos aspectos. É muito triste você ver alguém com quem você se importa ser machucada e você não poder fazer nada a respeito, é uma sensação de incapacidade e impotência sem fim. Hoje sei que não pude evitar aquilo que aconteceu na minha infância, mas posso fazer algo por todas as mulheres que enfrentam esses problemas diariamente por todo Brasil, mas que – infelizmente – continuam invisíveis aos olhos da justiça e dos políticos.

A violência doméstica é um crime e  sem dúvidas  uma grave violação de direitos humanos, mas esses dois fatores não impediram que  a mesma deixasse de ser praticada no país, pelo contrário, os números crescem a cada dia de forma extremamente preocupante. Pesquisas da Secretária de Políticas Públicas para mulheres da presidência da república, por exemplo,  apontam que 40% das mulheres em situação de risco são agredidas diariamente no Brasil. Entre os relatos de violência, 60% dos casos sofreu a agressão pelo marido ou algum familiar muito próximo, o que dificulta ainda mais o processo de denúncia e faz com que muitas das mulheres que sofrem com esse problema simplesmente não apareçam em muitos dados e pesquisas, pois preferem sofrer caladas, a denunciarem seus companheiros.

A denúncia em si também pode acarretar problemas para vitimas de agressão, pois a grande maioria convive com seus agressores e sabem das consequências de ter que encontrá-los – caso suas denúncias não acarretem na prisão ou afastamento dos denunciados do seu dia a dia. Por isso, temos que falar (e, claro, agir) sobre esse assunto cada vez mais, para que quando essas mulheres resolvam enfrentar o medo, elas – de fato – sejam ouvidas, cada vez mais, para que todas as mulheres ganhem uma voz legitimada no espaço nacional e que políticas públicas sejam criadas e implementadas para solucionar a(s) sua(s) defesa(s).

Precisamos desnaturalizar o ‘processo de violência’ e identificar as diversas formas de sofrer violência que existem nos dias de hoje, você já parou para pensar se já sofreu algum tipo de agressão? Mesmo que não fisicamente? Ou se achou normal ou pensou que não ‘era para tanto’ uma denúncia?

Vivemos em uma sociedade extremamente machista e, como homem, posso afirmar que já presenciei inúmeras mulheres sendo agredidas mesmo que não fisicamente. Você mulher, não pense que é normal se preocupar com a roupa que vai sair na rua, por medo do assédio ou violência. Porque não é. Definitivamente não é e não vai, nem pode ser.

A violência contra a mulher infelizmente é uma realidade que temos que enfrentar; sem sombra de dúvidas a Lei Maria da Penha foi um grande avanço em relação a esse problema, pois de fato hoje as mulheres denunciam muito mais os seus agressores, mas muito mais precisa ser feito. As mulheres que sofrem agressão precisam quebrar o ciclo de violência no qual estão inseridas, o que não é fácil,  mas para isso elas precisam se sentir seguras e amparadas com o apoio de uma tríade fundamental que é composta por: ministério público, polícia e o judiciário.

Existem casos mais extremos nos quais as vitimas precisariam ainda ser relocadas para um centro de apoio a mulher, há também algumas iniciativas no Brasil, e uma está sendo construída em São Paul no Canindé, mas esses centros precisam ser ampliados em caráter de urgência, pois a demanda de mulheres em situações extrema é lamentavelmente imensa. Triste não? Você imaginava que a situação estava assim?

De fato, eu não pude evitar o que aconteceu na minha infância com essa figura feminina tão importante na minha vida,  e isso por muito tempo foi  uma tristeza muito, muito grande e ainda mantém sequelas emocionais. Mas, eu infelizmente não posso mudar o passado e tudo que aconteceu com ela e consequentemente comigo, entretanto posso lutar por um futuro diferente para todas as mulheres do país, e fazer de uma triste história um grande passo na luta contra a violência doméstica.

Eu não preciso ser mulher para lutar contra violência doméstica, as mulheres sempre tiveram um papel muito importante na minha vida, e vou fazer o que estiver ao meu alcance para fazer com que as mesmas se sintam cada vez mais protegidas, amparadas e empoderadas pela sociedade.

Afinal, lugar de mulher é onde ela quiser – exceto por trás de lágrimas de quem sofre ou já passou por situações de violência doméstica. Não deixa sua coragem ou de alguma mulher que você conhece, fica ecoada ou escondida. Vamos usar toda e qualquer lembrança ruim sobre o assunto como aprendizado, em forma de força, como um motivo a mais para lutarmos para que esse crime seja extinto de uma vez por todos.

Não tenha medo, sendo homem ou mulher, de ajudar as vítimas da violência.

Parafraseando o grande cantor e compositor Lenine:

“O medo é uma sombra que o temor não esquiva
O medo é uma armadilha que prendeu o amor
O medo é uma alavanca que apagou a vida
O medo é uma fenda que aumentou a dor”.

Até quando o medo vai ser uma barreira para a violência doméstica… Até quando a violência doméstica vai existir… Até quando?

Emiliano Zapata